Novos cursos olham para o futuro do mercado financeiro

Assim como em outros setores, a tecnologia invadiu o mercado financeiro. Prova disso é o avanço de fintechs, bancos digitais e plataformas on-line de investimentos. Tal cenário exige profissionais com habilidades que vão muito além de compreender a dinâmica do setor, produtos e regulação. De olho nisso, nascem escolas de formação para quem deseja trilhar carreira nesse novo mercado financeiro. Ao mesmo tempo, instituições tradicionais começam a aprimorar metodologias de ensino e a incluir novas disciplinas na grade dos cursos de graduação e pós.

 

A Proseek, de educação profissionalizante, ganhou os primeiros contornos no fim de 2015, quando o economista carioca Felipe Gentil deixou a XP Investimentos, onde foi gestor de operações afiliadas da corretora. Em 2016, o negócio teve o reforço do também economista Rodrigo Fiszman, que por três anos atuou como sócio da XP na área de gestão de patrimônio. O administrador Celson Placido, que liderou a área de análise da XP entre 2013 e 2018, completou o time.

 

A escola abriu as portas no início de 2017 no Rio de Janeiro, com o lançamento da primeira turma do "master em financial markets", cujo objetivo é preparar estudantes ou recém-formados para ingressar no mercado financeiro. Como metodologia, os professores usam estudos de caso, dinâmicas de grupo, jogos de negócios, entre outros recursos. "Por meio da plataforma on-line, desenvolvemos uma rotina adaptativa para que alunos diferentes façam o mesmo curso, mas tenham experiências diferentes", explica Felipe Gentil, fundador e CEO e da Proseek.

 

A proposta atraiu a então estudante de economia Manuella Pópulo, 24 anos. "O que me chamou a atenção foi o modelo de unir a teoria com o aspecto prático do mercado, o que não tinha aprendido na faculdade", conta. O primeiro contato dela com o setor surgiu em 2017, quando trabalhou como estagiária na Fapes, fundo de pensão dos funcionários do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

 

Naquele ano, a rotina da estudante incluía aulas da graduação e do master em financial markets, estágio, além de um curso de extensão sobre finanças corporativas, realizado aos sábados pelo Coppead/UFRJ. Logo, o sonho de atuar no mercado financeiro se tornou realidade: em julho de 2017, Manuella ingressou como estagiária no private banking do J.P. Morgan. Um ano depois, foi efetivada como analista de private banking e precisou fazer as malas para São Paulo.

 

Com a certificação CPA-20, da Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro (Anbima), Manuella não parou de estudar. Agora, se prepara para o exame da certificação CFP (Certified Financial Planner), selo importante para quem atua no segmento de private banking. "É necessário ter dedicação e curiosidade intelectual porque é um ambiente competitivo e de intensa transformação", recomenda aos futuros profissionais.

 

A estudante faz parte de um grupo de 759 alunos já formados pela Proseek, incluindo turmas do master em financial markets e dos programas "specialist investment banking" e "specialist advisory". Entre os planos está a criação de uma faculdade - o pedido foi enviado este ano ao Ministério da Educação (MEC).

 

"Se tudo der certo, a instituição vai começar a operar no começo de 2020", afirma Felipe Gentil. Até junho, a escola planeja, ainda, o lançamento de uma pós-graduação em finanças corporativas, em parceria com uma instituição de ensino.

 

Já nas instituições com tradição na formação de profissionais para o mercado financeiro, há um movimento de criação de novas disciplinas, assim como alterações nas ementas dos programas e metodologias de ensino. "Não dá mais para explicar Sistema Financeiro Nacional sem citar fintechs, novos meios de pagamento e mudanças na regulação", exemplifica Adriano Mussa, reitor e diretor de pesquisa e inteligência artificial da Saint Paul Escola de Negócios.

 

Há dois anos, a instituição incluiu disciplinas de big data e transformação digital nos cursos de pós em finanças. Outro passo foi o lançamento da plataforma LIT, em março de 2018, que utiliza o sistema de inteligência artificial Watson, da IBM, para personalizar a aprendizagem. Por meio de uma assinatura mensal de R$ 129, os alunos têm acesso a todos os conteúdos da plataforma.

 

Neste mês, a Saint Paul lançou um curso on-line preparatório para a certificação de agentes autônomos, em parceria com a Genial Investimentos. Além do curso para a certificação, a expectativa é ter ainda este ano um MBA para agentes autônomos. "Um agente autônomo é um empreendedor e vai precisar, ao longo da carreira, de competências como gestão de pessoas, vendas e marketing", afirma Mussa.

 

Para Rodrigo Ferreira, coordenador do curso de ciências econômicas do Ibmec-SP, o novo profissional do mercado financeiro tem um leque muito maior de ferramentas para operar no dia a dia. O principal desafio, segundo ele, é justamente a compreensão de como essas tecnologias funcionam. Tanto é que a instituição passou a oferecer disciplinas de ciências de dados e Python (linguagem de programação) como matérias complementares à grade curricular da graduação. "Por trás dessas ferramentas, há estatística e programação. No fim do dia, o diferencial competitivo do profissional é ter essas habilidades", avalia.

 

Em parceria com o portal "InfoMoney", o Ibmec também criou um MBA em investimentos e private banking, na modalidade on-line, voltado para a formação de operadores do mercado financeiro. Ao longo de 12 meses, o conteúdo aborda renda fixa, ações, fundos, imóveis, criptomoedas, assim como cursos preparatórios para as provas da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidores de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord) e da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

 

Segundo Joelson Sampaio, coordenador da graduação em economia da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), o mercado tem demandado cada vez mais conhecimento quantitativo, incluindo ciência de dados. "Os bancos têm áreas de data science, com grande volume de dados, o que acaba demandando mais profissionais com essa competência. Desde 2017, temos conteúdos voltados para a área", diz.

 

Entidades do mercado financeiro, como a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) e a Ancord, também têm feito alterações nos cursos. Segundo Claudio Guimarães, diretor executivo da ABBC - que representa bancos de médio e pequeno porte -, existe um gap entre a realidade acadêmica e a realidade profissional. "Estamos fazendo programas de curta duração para apresentar produtos financeiros no contexto de open banking e pagamentos instantâneos", diz.

 

Já a Ancord lançou este ano uma plataforma de cursos a distância, com conteúdos técnicos básicos e avançados voltados, principalmente, para universitários, profissionais do mercado e investidores. "Hoje, temos três cursos, e a expectativa é chegar a nove até junho, atingindo cerca de 150 alunos por mês a partir de maio", diz José David Martins Júnior, diretor-geral da associação.

 

VALOR ECONÔMICO - EMPRESAS - São Paulo - SP - 18/03/2019 - Pág. B 2

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