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O mundo, cada vez mais depende do crescimento

A economia mundial se transformou numa bicicleta. Tem de seguir rodando. Se parar, desaba. E é esse o medo que varreu o mundo nesta semana quando a Alemanha, principal economia da Europa, apontou queda do PIB de 0,1% no segundo trimestre e a China, segunda economia do mundo, acusou o mais baixo crescimento industrial desde 2002, de 4,8%. Foi o suficiente para a derrubada das bolsas e para a fuga dos capitais em direção aos portos seguros habituais.

Não é acontecimento inesperado. Há meses, o Fundo Monetário Internacional vem alertando para os riscos de uma recessão mundial e, com base nessa expectativa, os grandes bancos centrais passaram a adotar uma política monetária mais frouxa (de juros mais baixos).

Alguns analistas vêm associando esse desempenho ruim da economia mundial à guerra comercial deflagrada pelo presidente Trump contra a China. Esse jogo protecionista está contribuindo para a desaceleração da economia chinesa, mas não deve ser tomado como causa da recessão mundial. Ele já é consequência da baixa expansão da renda nos países de economia madura, atingindo em cheio as classes médias e sendo a principal causa das políticas populistas e das manifestações de descontentamento nos Estados Unidos e na Europa.

A busca quase compulsiva do crescimento econômico e do progresso é relativamente recente. Até o século 18, não existia o conceito de PIB e ninguém se preocupava com medidas da evolução da riqueza das nações.

Simplificadamente, com a revolução industrial passou a ser necessária a expansão da demanda para dar conta do aumento da produção e para garantir o emprego da população que migrou do campo para as cidades. De lá para cá, sempre que houve desequilíbrio entre oferta e demanda de bens e serviços, houve crise, que, por sua vez, impõe mecanismos de ajuste.

A última grande crise foi deflagrada em 2008, a partir da quebra do banco de investimentos Lehman Brothers. Durou cinco anos, mas há quem entenda que não terminou; apenas tomou outra forma. Em 2008, os grandes bancos centrais despejaram dinheiro para recolocar a roda em movimento. Se a economia mundial entrar de fato em depressão, como alguns vêm advertindo, dificilmente eles poderão atuar com a mesma força porque os juros estão muito próximos do campo negativo. Mais dinheiro solto exigiria juros ainda mais baixos.

É por isso que alguns economistas avisam que a reação à crise tem de vir do lado fiscal, como aconteceu com o New Deal, a resposta do então presidente americano Franklin D. Roosevelt à Grande Depressão dos anos 30. Tem de vir do aumento das despesas dos governos e de mais investimentos públicos.

O diabo é que os Tesouros públicos são laranjas espremidas demais. Estão excessivamente endividados, não têm de onde tirar mais recursos para despejar em obras públicas e em contratações.

Enfim, a economia mundial ficou excessivamente dependente do crescimento econômico. Sem avanços significativos do PIB, a arrecadação baqueia, o desemprego aumenta e as dívidas crescem. Se esse cenário prevalecer, a primeira vítima poderá ser a democracia, porque a população tenderá a buscar um líder (ou um duce) que volte a por a bicicleta sobre as rodas.

O ESTADO DE S.PAULO – ECONOMIA - 16/08/2019 –PÁG B2

 

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