Ganha o País, e ganham principalmente as famílias de baixa renda, as mais vulneráveis à inflação, quando se preserva a credibilidade do Banco Central (BC), gestor da moeda e defensor de seu poder de compra. Manter essa credibilidade foi o principal efeito da publicação, ontem, de um documento ilegível e nada atraente para a maioria das pessoas, a ata da última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. Em outros momentos, a publicação desse relatório teria sido um fato rotineiro, de interesse quase exclusivo de quem participa do jogo diário do mercado financeiro e de capitais.

 

Desta vez a história foi outra. O documento apareceu na data habitual, mas depois de cinco dias de falatório, fofocas e dúvidas sobre a qualidade da atual política monetária. Com a ata, a diretoria do BC, tudo indica, virou o jogo.

 

cortar os juros básicos de 6% para 5,5%, na reunião de quarta-feira passada, o Copom confirmou a previsão dominante no mercado. Nenhuma surpresa nesse ponto. Mas, ao anunciar possíveis novos cortes ainda neste ano, indicou uma orientação classificada por analistas do mercado como frouxa ou, no jargão profissional, muito “dovish”.

 

O comitê, segundo esses críticos, teria subestimado os problemas internacionais, o risco de maiores pressões contra o real e os efeitos inflacionários de uma desvalorização cambial mais acentuada. Os dirigentes do BC, membros do Copom, teriam quase ignorado os novos sinais de instabilidade no mercado externo, mais intensos na semana de sua reunião periódica.

 

A ata valeu como resposta a essas críticas ou dúvidas. O texto contém, por exemplo, uma extensa exposição de hipóteses sobre como a inflação evoluirá neste ano e no próximo, com diferentes combinações de taxas básicas de juros e de câmbio. As várias combinações são baseadas em cenários do mercado e do próprio BC. Em nenhuma das projeções a inflação supera a meta oficial, fixada em 4,25% para este ano e em 4% para 2020.

 

Com base nesse conjunto de cenários, há, sim, espaço para a redução da taxa básica de 6% para 5,5%, já decidida, e, muito provavelmente, para mais um corte de 0,25 ponto ou, talvez, 0,5 ponto. Mas alguns economistas do mercado já calculam ações mais ousadas. Não se trata, no entanto, apenas de espaço para a redução da taxa básica, a Selic. O corte de juros é decidido com objetivo claro e importante: estimular uma economia muito fraca.

 

Na ata, assim como no informe mais breve publicado logo depois da reunião do Copom, há referência a uma pequena melhora das condições econômicas. A recuperação foi retomada, mas ainda lentamente. O documento menciona a ampla ociosidade de fatores – máquinas, equipamentos, instalações e mão de obra. Há algum otimismo, no texto, quanto aos efeitos da liberação de recursos do FGTS e do PIS-Pasep, mas o crescimento mais intenso e sustentável só virá, como já se afirmou em outros documentos, com medidas para aumento da produtividade.

 

Ainda se aponta um cenário externo benigno para os emergentes, por causa das melhores condições de financiamento internacional, mas a ata repete a advertência sobre o risco de agravamento das tensões comerciais e geopolíticas. Desta vez, o recado parece ter ficado mais claro para os leitores do mercado. Parece ter ficado mais claro, também, o aviso já transmitido de forma inequívoca no comunicado da semana anterior: qualquer nova decisão sobre os juros dependerá de um reexame das condições internas e externas.

 

A mensagem parece ter sido absorvida mais plenamente. No fundo, o recado foi o mesmo da nota da quarta-feira passada, mas com maior ênfase em alguns pontos. A prévia da inflação oficial, o IPCA-15 de setembro, confirmou preços bem comportados, com alta de 0,09% em quatro semanas e de 3,22% em 12 meses. O Copom caminha em terreno seguro. Se a desconfiança dos dias anteriores tiver sido eliminada, tanto melhor. Um BC com credibilidade é especialmente importante quando o governo se esmera em tropeços.

 

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