Vejo um futuro brilhante porque é muito difícil piorar, diz Guedes

18/06/2020

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse, nesta terça-feira (16), acreditar que a retomada econômica deve começar até novembro e que vê o futuro com otimismo por considerar ser difícil que a situação piore.

 

"Vejo um futuro brilhante porque é muito difícil a gente piorar, nosso viés cultural já nosbotounumburaco, então nós vamos ter que melhorar ", afirmou o ministro, em evento virtual do IGP (Instituto de Garantias Penais).

 

No evento, Guedes também disse que os embates entre os Poderes são o "ruído de uma democracia vibrante".

 

"Eu não compartilho do pessimismo de quem olha para isso e teme o caos, acha que o Brasil vai se incendiar a qualquer momento, o meu acompanhamento da história brasileira é outro, meu acompanhamento é que a democracia está cada vez mais robusta e mais flexível", afirmou.

 

"Ela [a democracia] tinha viajado todo espectro para a esquerda até a extrema esquerda, agora viajou pelo espectro da centro-direita e está indo até a direita mais extrema. Tem a capacidade de absorver os choques, os ruídos são naturais", completou.

 

O governo do presidente Jair Bolsonaro é marcado por embates com os Poderes Legislativo e Judiciário, que se agravaram após o início da pandemia do novo coronavírus.

 

"Eu prefiro o ruído da democracia ao silêncio de uma ditadura. Você não sabe o que está acontecendo hoje na Coreia do Norte, quantas vítimas do coronavírus tem lá", argumentou o ministro.

 

No Brasil, a divulgação de dados sobre a evolução da Covid-19 é alvo de desconfiança. O governo ameaçou sonegar dados, atrasou boletins, retirou informações do ar, deixou de divulgar os números totais de casos e mortes e divulgou informações conflitantes.

 

No evento, o ministro elogiou o presidente do STF, Dias Toffoli, e criticou a atuação dos tribunais de contas estaduais. "TCEs aprovam contas sem usar os mesmos critérios que o TCU [Tribunal de Contas da União] usa para a União."

 

Além disso, reforçou a importância da continuidade da agenda de reformas. "O Brasil vai surpreender e atravessar as duas [ondas], o congresso está conversando e vamos prosseguir com as reformas."

 

Guedes defendeu ainda a reforma tributária e a aprovação do pacto federativo.

 

"Se fizermos a reforma tributária de forma adequada, vão desaparecendo aqueles lobbies pela desoneração de um lado e aqueles contenciosos, que podem chegar a R$ 1 trilhão, do outro lado, que na verdade oneram o verdadeiro pagador de impostos."

 

Ele defendeu o que chamou de "passaporte tributário", em que o contribuinte pagaria um valor mais baixo para quitar seus débitos fiscais.

 

"Eu deixo você entrar nesse regime novo mediante um pequeno acerto de contas do passado [...] temos que oferecer uma chance a quem quiser comprar esse passaporte a um preço moderado, baixo."

 

O ministro Paulo Guedes (Economia), que acabara de anunciar uma previsão de alta de 2,1% do PIB no ano, pediu uma reunião de emergência na Câmara e deixou líderes decepcionados, com a percepção de que o governo não estava dimensionando corretamente os efeitos da crise. Era o reflexo do otimismo resistente da equipe do ministro.

 

O primeiro caso confirmado de Covid-19 no Brasil foi em 26 de fevereiro. Na época, integrantes do time de Guedes chegaram a cogitar um impacto mínimo na economia.

 

No Brasil, o calor diminui a propagação do vírus, diziam eles, tentando afastar o cenário de medidas de isolamento que ganhavam força na Europa e já haviam sido adotadas na Ásia. N a última semana, o Brasil ultrapassou a marca de 40 mil mortos e cerca de 830 mil casos confirmados.

 

Para a economia, a projeção oficial mais recente é um tombo de 4,7% no ano. A queda ainda é considerada eufórica fora do governo. Economistas e organismos internacionais já veem recuo de mais de 7%.

 

"O processo da crise é muito dinâmico e requer revisões mais frequentes de projeções macroeconômicas e fiscais. O número de [queda de] 4,7% do governo me parece ainda otimista", disse o diretor-executivo dalFI (Instituição Fiscal Independente, órgão ligado ao Senado), Felipe Salto.

 

Integrantes do governo reconhecem terem sido surpreendidos pelos efeitos da pandemia, apesar dos sinais devastadores do coronavírus em outros países antes da chegada do vírus ao Brasil.

 

As medidas sanitárias e uma campanha contra a transmissão vieram primeiro, enquanto a equipe econômica subestimava a força da crise.

 

Guedes chegou a declarar que, com R$ 5 bilhões, o vírus seria aniquilado. O governo, até hoje, continua injetando bilhões na saúde pública.

 

As primeiras ações no campo da economia surgiram em 14 de março após o reconhecimento da situação de pandemia e cobranças do Congresso por iniciativas.

 

Porém, a linha adotada ainda estava com viés maior nos empresários e trabalhadores formais. Uma exceção foi a ampliação de verba para o Bolsa Família passar a atender pessoas que estavam na fila de espera.

 

Foram quase dez dias entre o primeiro caso confirmado e a primeira reunião do grupo emergencial de acompanhamento dos efeitos da Covid-19 na economia. Esse mesmo período foi usado para o primeiro desenho da distribuição do auxílio emergencial - a operação mais complexa.

 

O governo era pressionado a lançar logo um plano de ajuda a profissionais autônomos, informais, microempreendedores individuais e desempregados.

 

Mas não sabia, diante do prazo restrito, como encontrar ou cadastrar essas pessoas, nem como pagar. O benefício só foi sancionado em i° de abril e começou a ser pago no dia 9 do mesmo mês.

 

O valor do auxílio foi outra discussão. Inicialmente, Guedes propôs R$ 200. Depois, Bolsonaro declarou que o benefício subiu para R$ 600 após estudos do governo.

 

Orelator dapropostana Câmara, deputado Marcelo Aro (PP-MG), diverge dessa versão.

 

"Só quando viram que o projeto [prevendo valor maior que R$ 200] seria aprovado, mesmo com os votos do governo contrários, o governo sugeriu um acordo", disse Aro.

 

No início de maio, quando o número de mortes por Covid-19 ultrapassou marca de 10 mil no Brasil, o governo cortou a previsão oficial para o PIB, de uma estabilidade de 0,02% para recuo de 4,7%.

 

Poucos dias depois, Bolsonaro considerou Guedes ainda otimista nas análises.

 

"A desgraça que vem pela frente, eu acho que o Paulo Guedes tá sendo até legal, hein, Paulo Guedes? Eu não sou economista, não. Vai ser uma porrada muito maior do que você possa imaginar. Não são apenas os informais. Eu acho que já bateu a 10 milhões de carteira assinada, foi pro saco", disse o mandatário na reunião de 22 de abril.

 

Até o início de março, a previsão do governo era que o coronavírus ia gerar impactos somente por causa de fatores externos (como na falta de produtos para abastecer fábricas, por exemplo).

 

Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, disse no fim de fevereiro que achava improvável haver restrições de circulação no território nacional.

 

A aposta era que o vírus não se espalharia no país em razão do clima. "Pelo que li, acho que o impacto no Brasil dificilmente vai ser por contaminação interna", disse Sachsida no dia 27 de fevereiro.

 

Os impactos previstos pela equipe econômica eram, até então, baseados só em três fatores. O primeiro era a demanda externa, ou seja, a desaceleração da economia no mundo e o menor apetite por produtos brasileiros. O segundo seria o da oferta, pois fábricas nacionais poderíam desacelerar a produção se parassem de receber insumos estrangeiros (principalmente da China). E o terceiro era o preço das commodities.

 

Foi somente em março que o governo passou a entender que a crise seria maior do que se pensava. A equipe econômica passou a estudar medidas considerando o impacto das restrições de circulação.

 

O diretor de Política Econômica do BC, Fabio Kanczuk, afirmou recentemente que a autoridade monetária não previa uma crise tão grande. O ceticismo continuava mesmo após uma reunião emergencial do Fed (o banco central americano), convocada em 3 de março para reduzir os juros em 0,5 ponto percentual.

 

As últimas vezes em que o Fed havia se reunido fora do calendário foram em setembro de 2001 - após os atentados - e em outubro de 2008, no auge da crise mundial.

 

"Quando o Fed reduziu os juros em março, todo o mundo disse: 'Que loucura, por que estão fazendo isso? Eles estão sabendo de algo que não sabemos? Estão criando pânico. Pensamos que no Brasil atingiría parte da economia, algo similar com a greve dos caminhoneiros, que atingiu a economia por um período. Não era esperado que fosse grande", disse há pouco mais de uma semana, reconhecendo que o entendimento mudou ao longo daquele mês.

Na reunião com congressistas, em 11 de março, Guedes disse que, no pior cenário, havería avanço de 1%. Hoje, o Focus já prevê uma queda de 6,48% para o PIB brasileiro.

 

O Ministério da Economia não quis se manifestar.

Data: quarta, 17 de junho de 2020 - 05:17
Mídia: Folha de S. Paulo
Editoria: Mercado

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