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Os bancos no pós-pandemia

Governo, Congresso Nacional e bancos têm trabalhado juntos para tentar fazer o crédito chegar na ponta. Porém, reconhecem que ainda é preciso fazer mais porque os dados deixam claro que a liberação de recursos pode até ter crescido, mas as operações acabaram concentradas entre as grandes empresas e continuam custando muito caro para os pequenos negócios e para as famílias brasileiras. Todos admitem que, além de resolver o presente, é preciso pensar no pós-corona-vírus para garantir que o sistema financeiro nacional cumprirá seu papel de forma adequada na retomada da economia.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, diz que a oferta de crédito cresceu no Brasil no início da quarentena. As concessões registradas em março e em abril deste ano superaram as liberações de empréstimos e financiamentos do mesmo período de 2019. Em algumas semanas, esse crescimento foi significativo no segmento de pessoas jurídicas: na última semana de março, logo após o início das medidas de distanciamento social, por exemplo, o crédito às empresas somou R$ 52 bilhões, bem mais do que o computado na semana anterior (R$ 38,4 bilhões) e e em igual semana do ano passado (R$ 23,9 bilhões). O BC calcula aumento de 24% no crédito às pessoas jurídicas durante a pandemia. "É importante manter o sistema financeiro funcionando em um momento como esse, porque a capacidade de alocar recurso é o que vai fazer a economia voltar a um formato desejado”, assinala.

O BC ressalta, ainda, que os bancos liberaram R$ 658,1 bilhões em empréstimos entre 16 de março e 26 de junho. Contudo, quase a metade disso foi emprestada às grandes companhias: R$ 307,8 bilhões. Restaram R$ 80,8 bilhões para as médias e R$ 67,1 bilhões para as micro e as pequenas, além de R$ 202,2 bilhões para as pessoas físicas. As maiores empresas responderam, também, pela principal parcela das renovações de contratos: R$ 104,7 bilhões de R$ 276,8 bilhões. Foi somente nas repactuações — isto é, nos acordos que permitiram postergar o pagamento das parcelas financiadas — que os pequenos e os médios negócios e as famílias tiveram prioridade.

Oportunidade Além disso, o crédito oferecido a esses segmentos segue caro. Apesar de a taxa básica de juros (Selic) estar na mínima histórica, de 2,25% ao ano, os encargos médios para quem toma crédito são de 20,4% anuais. Isso porque o spread bancário — diferença entre o que as instituições cobram dos devedores e pagam aos investidores — está em 17,2 pontos percentuais, segundo o BC. “Parte do estigma da sociedade em relação ao sistema financeiro está no fato de o spread ser alto, mais alto do que o de outros países”, reconhece Campos Neto. Ele ressalta que esse indicador é um reflexo de “ineficiências” do sistema de recuperação de crédito e do sistema tributário brasileiro, mas garante que o governo vem trabalhando para atacar alguns desses problemas.

Presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney Ferreira reforça que “os juros não são altos no Brasil porque os bancos querem, mas em razão de uma série de características da economia brasileira”. E pede ao governo que, de fato,

trate dessas questões para melhorar o ambiente brasileiro de negócios e, assim, atrair investimentos privados no pós-pande-mia. “Teremos juros baixos por um bom tempo no mundo e aqui, no Brasil. E isso é uma grande oportunidade”, frisa o executivo, garantindo que os bancos estão prontos para financiar projetos que ajudem na recuperação da economia.

Garantir o acesso ao crédito a um custo adequado, contudo, não será o único desafio do sistema financeiro depois da crise provocada pelo novo coronaví-rus. É que a pandemia revelou milhões de “invisíveis” que não constavam nos cadastros do governo e dos bancos, mas que, agora, foram bancarizados para receber benefícios sociais, como o auxílio emergencial de R$ 600. "Precisamos continuar olhando para o exército de trabalhadores autônomos e informais que, agora, estão movimentando, pela primeira vez, suas contas bancárias”, destaca o presidente da Febraban. “Milhões de pessoas que eram invisíveis passaram a ter contas digitais. Isso mudará a dinâmica financeira daqui para a frente”, ressalta Campos Neto.

Futuro à vista O presidente do BC destaca, ainda, que a maior parte desses trabalhadores recebeu o auxílio emergencial de forma digital. E lembrou que o isolamento social levou outras camadas da população brasileira a ampliarem o uso da tecnologia, sobretudo para fazer compras e pagar contas de forma remota. Por isso, ele acredita que tal momento transformará diversos hábitos sociais e exigirá cada vez mais inovação e competitividade do sistema financeiro. “Temos que construir o sistema financeiro do futuro”, avisa.

Diante desse desafio, Campos Neto garante que a agenda de competição, inovação e inclusão do BC segue forte. “Todos os prazos estão mantidos”, frisa. A autoridade monetária promete lançar, nos próximos meses, por exemplo, o open banking e o sistema de pagamentos instantâneos PIX. E ainda quer estimular a “descon-centração bancária”. Não por acaso, tem desenhado medidas de estímulo às fintechs e, especialmente, às cooperativas de crédito, que, na atual pandemia, mostraram-se mais próximas das micro e pequenas empresas do que os grandes bancos brasileiros. “O preço que o sistema financeiro pagou em todas as crises é a enorme concentração na saída da crise. Mas o sistema financeiro do Brasil funciona bem, é competitivo. E nossa agenda de competição, inovação e inclusão segue forte”, emenda.

O presidente do BC afirma que, como a ideia é ampliar cada vez mais a concorrência do setor, a instituição não proibiu o sistema de pagamentos do WhatsApp de operar no Brasil. Segundo ele, a operação só foi suspensa para ser regulamentada da maneira adequada. “Queremos que nos mostrem o arranjo, para termos certeza de que vai ser competitivo. E tem outro ponto, que é a proteção de dados. Entendendo que o sistema é competitivo e que os dados das pessoas serão protegidos de forma adequada, o BC está disposto a autorizar, assim que for seguido o mesmo trilho dos outros arranjos", enfatiza. No entender de Campos Neto, todos os planos de inovação do sistema financeiro têm que prezar por dois princípios: a competitividade do setor e a proteção dos dados pessoais e financeiros dos brasileiros.

 

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