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A política de juros e o efeito borboleta

Em 1969, o meteorologista e matemático americano Edward Lorenz formulou a ideia do efeito borboleta. Um simples bater de asas na altura dos polos pode desencadear pressões de ar capazes de produzir furacões no outro lado do mundo.

Na quinta-feira passada, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Jerome Powell, anunciou no encontro de presidentes de bancos centrais, realizado todos os anos em Jackson Hole, Kansas, certa mudança na condução da política de juros. Muita gente pode achar que se trata de movimento sutil, já colocado em prática e quase desimportante. No entanto, pode ser o bater de asas com potencial de produzir impactos ao redor do mundo.

Em resumo, o que Powell anunciou foi a adoção de novo critério para definição da meta de inflação, de 2%, para efeito de determinação da política de juros no mercado dos Estados Unidos. Em vez de retirar ou injetar moeda preventivamente a cada ameaça de movimento mais brusco da inflação, o Fed olhará para um prazo mais esticado, que poderá incluir altas e baixas no conjunto dos preços. Powell não disse qual seria esse prazo, mas ficou entendido que o Fed só passará a agir se ficar mais nítida a trajetória da inflação e seu efeito desestabilizador para a atividade econômica, não importando se para cima ou para baixo.

A consequência mais relevante para essa mudança é a de que os juros básicos (Fed funds), hoje em torno de zero por cento ao ano, deverão permanecer nesse nível por mais tempo do que o esperado até agora. A partir desse novo critério, empresas, consumidores e aplicadores de recursos no mercado financeiro terão um horizonte mais largo para definir seus negócios e contratar pessoal, sem risco de que, lá pelas tantas, a atividade econômica se contraia outra vez porque terá de lidar com dinheiro mais escasso e mais caro.

Juros rastejantes por mais tempo na principal economia do mundo, por sua vez, induzirão outros grandes bancos centrais a reger suas políticas monetárias com regulagens equivalentes do metrônomo. Assim, o enorme volume de moeda hoje espalhado pelo mundo deverá permanecer mais ou menos intocado, com juros muito perto da área negativa e os ativos de risco (especialmente ações) continuarão estimulados... Até que, eventualmente, um vendaval qualquer aconteça. Ou não.

Por trás dessa decisão do Fed há muita coisa mais, especialmente a necessidade de manter azeitada a economia para que se recupere da pandemia.

Mas há outros fatores em jogo. Se, por exemplo, o mundo inteiro vive uma revolução nas relações de trabalho, não dá, também, para continuar medindo e avaliando emprego e desemprego pelos critérios anteriores. O uso intensivo da tecnologia de informação desencadeou importantes transformações.

Empresas e trabalhadores vêm surfando sobre aplicativos até há poucos anos inexistentes, e agora responsáveis pela dispensa de pessoal e pela criação de áreas de atividade consideradas informais. O cara virou trabalhador por conta própria e já não figura nas estatísticas de abertura de postos de trabalho convencionais.

Também dá para ignorar novo comportamento da inflação. Nos países industrializados, a população está envelhecendo e já não apresenta a mesma voracidade consumista, o que também produz importantes mudanças na variação dos preços. A redução de custos produzida pela intensificação do uso da nova tecnologia e pelas novas facilidades de transporte também vem derrubando os preços dos produtos industrializados. E a própria pandemia alterou substancialmente a cesta de consumo pela qual vinha sendo medida a inflação. Ou seja, ao redor do mundo, o DNA da inflação sofreu mutações e as séries históricas das estatísticas já não dizem a mesma coisa. Os estudiosos ainda não entenderam todo o alcance das mudanças em curso nem conseguiram propor políticas eficazes para enfrentá-las.

A nova postura do Fed, agora reconhecida e declarada, produzirá consequências não apenas sobre a política monetária dos demais países industrializados. Por aqui algum impacto também parece inevitável. Essas mudanças estruturais na inflação parecem ter demonstrado que a economia também pode conviver mais tempo com juros muito baixos. E se os juros lá fora permanecerão por mais tempo ao rés do chão, fica afastado um elemento que também puxaria os juros para cima aqui no Brasil. Enfim, é fator adicional que encoraja o endividamento e as aplicações de risco.

 

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