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Confiança no país

Acostumado a grandes desafios, como trocar de emprego depois de 26 anos de casa para se mudar para um concorrente, o Vice-presidente de Marketing, Vendas, Peças e Serviços da Mercedes-Benz admite que a crise causada pela pandemia do coronavírus poderia ter se transformado em um de seus piores pesadelos.

Porém, apesar dos estragos provocados no mercado de caminhões, seu impacto foi bem menor do que esperado. Especialmente para ele e a empresa que representa, já que as vendas nos primeiros sete meses do ano superaram a média da indústria, que acusou uma queda de 14,9% no período. Ele credita o desempenho a um conjunto de fatores postos em ação na Mercedes-Benz, do uso mais intensivo da inteligência artificial até o Mercedes Club, entre outros.

Confira agora, nessa e nas páginas seguintes, a entrevista concedida à Multiplataforma Frota&Cia, disponível em formato de texto, áudio e vídeo.

FROTA&CIA - Como você resume o impacto da pandemia na indústria de veículos comerciais?

Roberto Leoncini - Eu acho que o impacto foi menor que o esperado. No começo ou no meio de março, quando fomos obrigados a parar a produção em função da segurança dos colaboradores, projetamos vários cenários. E imaginamos, na ocasião, que o impacto poderia ser muito maior do que hoje vemos. Ainda vivemos um momento bastante inseguro. Mas o fato é que o setor de caminhões garantiu o ritmo e manteve as operações. Mantivemos, junto com a rede de concessionários, os 185 pontos abertos e atendendo os nossos clientes, porque havia uma demanda muito forte e essa é nossa prioridade. O impacto foi significativo evidentemente e nós vamos sentir por bastante tempo. Mas ele foi menor que os nossos piores pesadelos.

FROTA&CIA - Quais segmentos de mercado foram mais afetados pela crise? E quais sofreram menos os seus efeitos?

Roberto Leoncini - O segmento de mercado da logística, que estava ligado ao varejo, foi bastante afetado. Outro segmento que sentiu os efeitos da crise, logo no começo da pandemia, foi o transporte de automóveis. Em compensação nós tivemos segmentos que rodaram acima do que eles estavam esperando. Por exemplo gases hospitalares, GLP, medicamentos. Também foi o caso do comércio eletrônico, já que todo mundo está partindo para o consumo e utilizando ainda mais o e-commerce. O agrobusiness não parou, por causa dos números da safra desse ano que foram muito bons e vem causando vários impactos no segmento de transportes. Na mineração também ocorreu uma aceleração muito forte. Da mesma forma que o setor de celulose continua evoluindo. Então tem vários segmentos nos quais fomos surpreendidos, mas foi uma reação bastante positiva que não esperávamos.

FROTA&CIA - De janeiro a julho desse ano, os licenciamentos de caminhões acusaram uma queda de 14,9%. A Mercedes-Benz, no entanto, contabilizou perdas bem menores que a média da indústria em todos os segmentos de peso, com exceção dos pesados. O que explica essa performance?

Roberto Leoncini - Eu tenho falado que a gente vem se preparando para várias coisas com inteligência artificial, machine learning. Estamos mais perto dos clientes. Hoje temos quase 300 pontos dedicados a serviços. Temos 185 concessionários e quase 100 serviços remotos.

Na hora em que o transportador precisa de um equipamento confiável, que entrega disponibilidade, já pronto para rodar e sabe que vai ter o atendimento quando necessário ele lembra da Mercedes-Benz como opção em vários segmentos. Estamos fazendo a nossa lição de casa. Falando das opções, como a Select Truck, Consórcio e Banco Mercedes-Benz. Tudo isso faz uma certa diferença na hora da escolha.

FROTA&CIA - Que medidas a empresa vêm adotando para estimular as vendas de veículos, peças e serviços nos dias atuais?

Roberto Leoncini - Nós temos várias campanhas: por exemplo o Mercedes Club, único programa de fidelidade dentro de veículos comerciais. O Mercedes-Benz online que é a nossa plataforma, é a nova porta para o cliente entrar em contato com o concessionário de maneira virtual. Estamos oferecendo várias opções para o cliente, como o plano "Seis Meses" de carência. No Consórcio Mercedes- Benz acabamos de lançar e já esgotou o plano que é de até 120 meses. O Select Trucks vem ajudando muito a renovação de frota. Têm muitas empresas fazendo isso durante a pandemia, principalmente aquelas mais estruturadas que estão vendo uma oportunidade de se preparar mais ainda e ganhar participação de mercado. E nós estamos sempre do lado do cliente.

Nosso slogan "As Estradas falam e a Mercedes ouve" é efetivamente o que vem acontecendo hoje. FROTA&CIA - Ao seu ver, que eventuais lições essa crise pode deixar de positivo para o transportador brasileiro?

Roberto Leoncini - Eu acho que o primeiro efeito positivo dessa crise para o transportador, para o caminhoneiro foi o reconhecimento da população. Por isso, o setor como um todo deveria aproveitar esse momento para fazer algumas discussões como a renovação da frota. Quando falamos de renovação de frota, todo mundo acha que isso é uma pressão das montadoras para vender mais caminhão. Mas teoricamente tem um efeito contrário. O dia que o Brasil tiver uma frota adequada, com idade média muito menor, o volume de vendas será menor porque a frota será mais disponível, mais eficiente.

FROTA&CIA - O que mais, além disso, você vê de positivo?

Roberto Leoncini - Os transportadores também perceberam que o virtual pode ser uma nova maneira de negociar, por exemplo. Nós estamos passando por isso e é um aprendizado que vai ficar. Quase todos os negócios que fizemos nesse período foram de uma maneira virtual, sem contato físico, conversando como estamos conversando aqui agora. Através de algumas das plataformas disponíveis você mantém o "olho no olho" de uma maneira distante, porém segura.

Eu acho que esse vai ser também o novo normal.

Teremos efeitos positivos e teremos alguns que vão ficar para trás.

Provavelmente quem já não estava estruturado, organizado, com a saúde financeira positiva e preparado para tudo isso que aconteceu vai sofrer.

Estamos vendo também no mercado algumas aquisições.

FROTA&CIA - O que a empresa 4.0 pode trazer de benefícios para os clientes da Mercedes-Benz?

Roberto Leoncini - A indústria 4.0 possibilitou, por exemplo, o novo Actros. Esse eu acho que é o maior dos benefícios para os clientes.

Poder trazer um caminhão com toda essa tecnologia de segurança, conforto, desempenho e a inteligência que o caminhão tem. Se a gente não tivesse uma fábrica 4.0 não poderíamos fazer isso. Também traz para os clientes a flexibilidade de poder atender rapidamente, de poder mudar o mix rápido. Hoje existe uma conexão muito mais forte da área de vendas com a produção, com os fornecedores. Tudo isso a indústria 4.0 ajuda de uma maneira bem efetiva você ser mais eficiente e isso se traduz para o cliente em menos tempo.

FROTA&CIA - A indústria do transporte vinha evoluindo em direção aos veículos movidos a combustíveis alternativos, altamente conectados e cada vez mais eficientes. A paradeira que tomou conta do mundo, em função da pandemia, pode retardar ou acelerar esse processo da mobilidade humana?

Roberto Leoncini - Certamente teremos alguns impactos, dependendo da localidade. A Europa segue conversando sobre isso. Mas, efetivamente, temos de parar para analisar qual é o impacto econômico que tudo isso vai causar na sociedade e nas montadoras de veículos.

Porque a gente sabe que essa caminhada para os combustíveis alternativos, a eletrificação e a redução do CO2, etc exige uma série de investimentos maciços. Mas, acho que todas as autoridades, de uma maneira ou de outra, vão ter outro nível de pioridade na retomada. Nenhum plano até agora foi arquivado, nem no Brasil nem na Europa e todas as legislações ainda estão em vigor e os clientes vão ter que cumprir.

FROTA&CIA - O que você pode dizer aos empresários que nos ouvem, como incentivo para enfrentar e superar esse momento?

Roberto Leoncini - Ninguém imaginava o tamanho do impacto na mobilidade da carga.

O transportador que tem um planejamento de renovação de frota, que investe na qualidade de entrega para o cliente vai sair beneficiado. O Brasil está avançando a passos largos para a intermodalidade. Isso é muito importante para o país, com o tamanho da safra que estamos colhendo nesse ano. Mas ainda somos um país vocacionalmente voltado para o transporte rodoviário, por causa da infraestrutura. Temos que apostar no segmento, temos que acreditar que o país vai retomar. Nós somos os maiores plantadores do mundo hoje e vamos continuar sendo futuramente. Também temos uma população enorme que precisa consumir. E vai consumir artigos que serão transportados por veículos comerciais. Essa é a minha direção para os empresários do transporte de carga.

Veículo: REVISTA FROTA & CIA Editoria: ENTREVISTA Tipo notícia: Entrevista Data: 16/09/2020

 

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