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Cenário é de crise para o Brasil, e analistas não querem ver

Não é raro que o governo de um mercado emergente seja cobrado para apresentar um plano crível mostrando que as finanças públicas são sustentáveis. Mas quando a pessoa que faz o pedido é o chefe do Banco Central, nomeado pelo governo, pode haver mais motivos de preocupação para os investidores.

Paulo Guedes (Economia) certamente não apreciou o toque de despertar no fim do mês passado, desafiando rapidamente o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto: "Se ele tiver um plano melhor, pergunte qual é".


Campos Neto, entretanto, tinha uma boa tese. Guedes é um seguidor dos princípios do livre mercado de Milton Friedman e acredita em um governo pequeno. Mas ele seguiu numa das maiores ondas de gastos relacionados ao coronavírus entre os mercados emergentes, usando um cartão de crédito metafórico que já estava estourado antes da pandemia. Os gastos extras ajudaram o Brasil a evitar uma recessão profunda neste ano, mas a que preço?


"Estou seriamente preocupado sobre a imagem fiscal em médio e curto prazo", disse Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs. Ele comenta que o Brasil tem um dos níveis mais altos de dívida pública em proporção do PIB de todos os mercados emergentes, prevendo que chegue a 94% neste ano.


Mais de 90% da dívida do governo brasileiro são emitidos em moeda local, segundo números do Tesouro Nacional, e o estresse começa a aparecer nos mercados domésticos.


A curva de rendimento da dívida brasileira se acentuou muito neste ano, com o título para dez anos hoje rendendo 7,4% em comparação com a atual taxa de referência Selic do Banco Central a 2%.


Luis Oganes, diretor global de mercados emergentes no JPMorgan, disse que é "uma das curvas de rendimento mais íngremes do planeta", com taxas de longo prazo subindo acentuadamente em relação às de curto prazo. Os investidores estão calculando um aumento de taxa de até 300 pontos básicos a partir de janeiro, acrescenta ele, e "o governo está emitindo maciçamente no curto prazo porque não quer validar essa curva".


As maturidades médias da dívida pública federal doméstica caíram para 3,57 anos no final de outubro, contra 3,83 anos no fim do ano passado, segundo o Tesouro Nacional do Brasil.


Por trás dos sustos está o medo de que o muito elogiado programa de reforma brasileiro para cortar os elevados deficits orçamentários -o principal motivo pelo qual os investidores festejaram a eleição de Jair Bolsonaro para presidente- tenha estagnado.


"O problema é essencialmente político", disse Zeina Latif, consultora econômica em São Paulo. "O Ministério da Economia sabe o que precisa ser feito, mas estamos vendo um ministro que foi gravemente fragilizado e que hoje não convence."


Bolsonaro, enquanto isso, descobriu as alegrias eleitorais dos gastos com assistência social. Seus índices em pesquisas de opinião saltaram depois que ele lançou um subsídio mensal de R$ 600 para quase um terço da população, a um custo mensal de mais de R$ 46 bilhões.


O problema é que os pagamentos do "coronabônus" deverão terminar em 31 de dezembro. Enquanto sua campanha à reeleição se arma, Bolsonaro poderá achar impossível resistir ao atrativo de literalmente comprar popularidade --especialmente depois que seus candidatos se saíram muito mal nas eleições municipais de novembro.


Marcelo Castro, gerente de portfólio no fundo hedge brasileiro SPX Capital, acredita que uma lenta deterioração no Brasil é mais provável que uma crise repentina. "Está borbulhando e espumando, mas não explodindo", disse ele.


Castro espera uma recuperação do crescimento no próximo ano que fará aumentar a inflação, forçando as taxas a até 4% em junho. Mas ele admite que "há muitos cenários de risco ao redor disso".


Ilan Goldfajn, presidente do Credit Suisse Brazil e ex-chefe do Banco Central, acredita que nada acontecerá sobre a extensão dos gastos do coronavírus ou reformas progressivas até fevereiro. "Se for esse o caso, o Brasil pode surfar os riscos durante alguns meses", disse ele.


No entanto, se o próximo ano trouxer gastos extras sem reformas, Goldfajn diz que o risco de uma crise do mercado aumentará.


Marcos Casarin, economista-chefe para a América Latina da Oxford Economics, concorda que o verdadeiro teste virá no próximo ano, com a dívida de curto prazo equivalente a cerca de 6% do PIB precisando ser rolada até abril. "O Brasil está na corda bamba", disse ele.

Veículo: FOLHA DE S. PAULO - SP Editoria: MERCADO Tipo notícia: Artigo Data: 09/12/2020 Autor: Michael Stott Editor de América Latina do Financial Times

 

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