Crédito auto sente queda nas vendas e vê calotes em alta


Fonte: Valor Econômico|

Inflação e juros altos agora também afetam segmento de veículos usados, que salvou o setor em 2021

Se em 2021 a venda de veículos usados mais do que compensou a queda no mercado de novos e propiciou um ano recorde para o crédito automotivo, agora o cenário é bem menos animador. Com juros e inflação nas alturas, a comercialização de automóveis usados também passou a cair. Como a inflação eleva os volumes financiados, as carteiras ainda não têm recuado, mas os bancos já veem um ano bem mais difícil. A inadimplência, enquanto isso, está em alta nítida, embora não se espere nada nem próximo do salto nos calotes visto na crise de uma década atrás.

Segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de autos e comerciais leves usados somam de janeiro a março 2,003 milhões de unidades, uma queda de 24,71% na comparação com o primeiro trimestre de 2021. Já as vendas de veículos novos totalizam 510,846 mil de janeiro a abril, com baixa de 22,80% sobre o mesmo período do ano anterior – nesse caso, além da inflação e dos juros, o mercado sofre o impacto da falta de componentes em decorrência da pandemia.


Dados do setor mostram que o financiamento de veículos usados totalizou R$ 31,909 bilhões no primeiro trimestre, com alta anual de 28,1%, enquanto o de novos somou R$ 10,191 bilhões para novos, com queda de 14,3%.

“A aceleração da inflação corrói o rendimento do trabalhador e começou este ano afetando um pouco mais o veículo usado. Além disso, os bancos também ficaram um pouco mais restritivos no crédito no primeiro trimestre, com sinais de deterioração na carteira”, diz André Novaes, diretor de financiamento do Santander, um dos líderes em crédito automotivo, com uma carteira de mais de R$ 64 bilhões, considerando a fatia do grupo nos bancos Renault, Hyundai e Peugeot. Na teleconferência de resultado do banco, o vice-presidente financeiro, Angel Santodomingo, mencionou duas vezes, espontaneamente, que a situação no crédito automotivo estava difícil para a indústria como um todo.

Para Rodnei Bernardino de Souza, diretor de negócios de veículos do Itaú Unibanco, 2022 vai ser um ano difícil. “O ano passado foi extraordinário, foi recorde, e achávamos que este ano ficaria um pouco de lado. Mas o mercado começou a ficar mais complicado, com juros em alta, inflação elevada. Em setembro, outubro do ano passado começamos a observar um aumento da inadimplência nas novas safras, o que acendeu um sinal amarelo e nos levou a fazer alguns ajustes”, diz.

No Banco Pan, Alex Sander, diretor comercial e de produtos, diz que a alta dos juros e as incertezas do cenário político e econômico podem afetar a demanda por financiamento. Para manter o ritmo de crescimento e ampliar a estratégia digital, a instituição financeira adquiriu no ano passado a Mobiauto, plataforma com mais de 6 milhões de acessos mensais, o que lhe deu a capacidade de ofertar crédito para um maior número de pessoas. “Quanto ao mercado de carros usados, mesmo estimando uma retração do crédito no primeiro semestre, acreditamos em uma recuperação a partir do segundo semestre, fechando o ano em linha com 2021”, afirma.

No Bradesco, o presidente Octavio de Lazari Jr, disse em entrevista à imprensa que, nos financiamentos para clientes do banco, a inadimplência está estável. Porém, o executivo admitiu que o índice de atrasos tem subido um pouco na financeira do grupo, que atua com não correntistas, até porque aumento a proporção de carros usados no volume de operações. E eles têm uma taxa de juros maior. “Mas a margem compensa com sobra a inadimplência”, argumentou.

Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), diz que as concessões totais para o setor automotivo têm caído desde agosto do ano passado, com os bancos adotando uma postura mais seletiva. “A inadimplência vai continuar subindo, mas com uma acomodação no ritmo de alta, dada essa maior seletividade dos bancos nas concessões. Mas não vejo uma restrição total dos bancos. É uma carteira de quase R$ 250 bilhões, é um segmento importante.”

A inadimplência de pessoas físicas na aquisição de veículos ficou em 4% em fevereiro, mesmo nível de janeiro e o maior patamar desde julho de 2020. Na esteira da crise de 2011, chegou ao recorde de 7,2%. Para Novaes, do Santander, o segmento fez uma “correção” na carteira no fim do ano passado, mas o executivo diz que não foi uma “tirada de pé do acelerador. Ele aponta ainda que o banco deve lançar em breve novos modelos de crédito, com uso intensivo de dados e, assim, vai manter seu foco no segmento.

“As correções que existem são naturais, todos os concorrentes fizeram. Estou superotimista com o segundo semestre. Não tem a menor chance de ocorrer algo similar a 2011. Não temos uma explosão de inadimplência. Hoje o mercado está mais maduro, estruturado. Os níveis de financiamento em relação ao valor total do carro são bem menores”, diz Novaes. Essa visão é corroborada por Marcondes, do Pan. “Ao longo dos últimos anos o mercado foi aprimorando as regras de concessão de crédito, contribuindo para que não alcance patamares observados em períodos de crise anteriores.”

O Itaú, no entanto, demonstra preocupação com a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de suspender, em todo o país, as ações de busca e apreensão. O órgão resolveu julgar, em caráter repetitivo, se as notificações enviadas pelos bancos aos seus clientes endividados podem ser assinadas por terceiros.


Segundo Teresa Cristina Marcondes, diretora jurídica do banco, desde 2018 a jurisprudência consolidada é a de que o envio da carta é suficiente, mas agora, com a decisão do STJ, muitos tribunais estão exigindo o protesto da dívida, o que é muito mais caro, demorado e trabalhoso. “Acreditamos que a discussão no STJ terá um resultado positivo, mas enquanto isso já estamos estudando os fluxos de protestos em alguns lugares mais rígidos.”

Souza diz que, por enquanto, o imbróglio do STJ não está provando uma desaceleração na concessão de crédito pelo Itaú, mas se o impasse perdurar isso pode mudar. “Arrumando a questão do STJ, com a volta da segurança jurídica, esperamos um segundo semestre muito parecido com a segunda metade do ano passado, em termos de volume financeiro, embora em unidades financiadas haja uma queda. Se não arrumar (…) as taxas praticadas hoje dependem da busca e apreensão, para ter uma sustentabilidade do negócio”, afirma.

Depois de um período difícil em seu negócio automotivo em meados da década passada, o Itaú repensou o produto, adotando uma postura muito mais conservadora. Nos últimos dois anos, no entanto, com uma carteira mais saudável, o banco viu que dava para assumir um pouco mais de risco, indo inclusive com mais força para o mercado de usados. “A inadimplência no mercado estava entre 3,5% e 4%, e a gente estava 30%, 40% abaixo disso. Aí vimos que trabalhar com a inadimplência média do mercado ainda era bom para nós e, com cautela, ganhamos share no mercado de usados”, afirma.

Para Souza, o desafio é encontrar o equilíbrio entre ganhar participação de mercado e manter a inadimplência sob controle. O executivo diz que o banco não voltará para a postura conservadora que o fez perder market share, mas também não quer uma liderança a qualquer custo. “Já fomos líderes, tínhamos mais de 30% do mercado, mais aí vieram a inadimplência, os juros, e esses empréstimos não foram pagos. Não adianta uma liderança que não se sustenta no tempo.”