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Inflação: a meta de 2024

No mês de junho, o Conselho Monetário Nacional (CMN) deve decidir a meta de inflação de 2024.

Antigamente, essa meta era decidida dois anos antes e, recentemente, as autoridades ampliaram esse espaçamento, fazendo com que a meta para o ano t seja anunciada no ano (t-3). Para quem não acompanha em detalhes os meandros do assunto, vale lembrar que a meta vigente para 2021 é de 3,75%, e o CMN já definiu as metas de 3,50% para 2022 e de 3,25% para 2023. À luz dessas decisões, o Conselho deveria conservar o rumo e apontar uma meta de 3,0% para 2024. Penso que, concomitantemente a esse anúncio, o CMN deveria em paralelo fazer uma outra comunicação, informando que em 2024 será inaugurada uma nova fase do regime de metas de inflação estabelecido em 1999, fase essa em que a meta de inflação será definida em caráter sine die em 3,0%, conservando a faixa de tolerância de 150 pontos básicos para acima ou abaixo da meta, ou seja, no intervalo de 1,5% a 4,5%. Muitos países têm faixas menores e eu mesmo, no passado, defendi o estreitamento para 100 pontos, mas a variância de nossa inflação tem sido tão grande e os choques tão intensos, que hoje penso que ter essa flexibilidade maior é positivo.

Da mesma forma, se no passado já defendi uma meta menor, hoje estou convencido de que, nas circunstâncias em que a economia brasileira se encontrará ao longo da década, uma meta de 3,0% está de bom tamanho. Se o País fizer progressos, daqui a 15 ou 20 anos as autoridades eventualmente poderiam dar passos mais arrojados e postular uma meta inferior a 3,0%, rumo a níveis observados em países desenvolvidos, mas não vejo isso como adequado enquanto continuarmos a ser uma economia emergente em que a inflação acaba sendo a forma de expressão de desequilíbrios estruturais ainda relativamente difíceis de sanar.

Por outro lado, com todo o investimento que o País fez num longo e complexo processo de desinflação, não faz sentido, nesta altura, deixar de completar esse processo. Portanto, é importante dar sequência ao ciclo de baixa já definido, fixando a nova meta em 3,0%. Ao mesmo tempo, a explicitação de que a meta seria mantida de 2024 em diante daria um horizonte de previsibilidade aos agentes econômicos, além de favorecer a definição de cenários para a colocação de títulos da dívida pública de prazo mais longo.


Evidentemente, se houver mudança de governo em 2023, as futuras autoridades estariam livres para alterar a meta.

Sinceramente, porém, depois de tanto esforço que o País fez para chegar aonde esperemos que esteja no começo de 2023 nessa trajetória, parece-me que seria um completo equívoco abandonar algo que não seria um feito do atual governo, especificamente, e sim do País, com méritos compartilhados entre os governos FHC (que lançou o regime), Lula (que reduziu significativamente a inflação em relação a 2002), Temer (que recolocou a taxa na trajetória de queda depois do ano difícil de 2015) e Bolsonaro (que teria definido a meta estável de 3,0%). Num país com o passado hiperinflacionário do Brasil, creio que é algo a ser comemorado.

É óbvio que, no momento, há outras prioridades que merecem atenção. Porém, a decisão é referente a 2024, quando se espera que a pandemia seja apenas uma lembrança amarga, mas definitivamente deixada para trás.

Portanto, 30 anos depois da estabilização do Plano Real (1994), teremos então completado um longo percurso, depois da primeira taxa de inflação de 1995, ainda alta, de 22%. Quando se leva em conta que a vizinha Argentina se debate com a perspectiva de uma taxa anual da ordem de 40% a 50% e que, ao norte, a Venezuela vive como o Brasil da inflação dos níveis estratosféricos de 1987/1994, percebe- se como é importante persistir no caminho traçado. Se há algo que o País não precisa neste momento, com todos os dramas que já temos, é correr o risco de que esse problema se instale de novo entre nós. Com a inflação, todo cuidado é pouco. Veículo: O ESTADO DE S. PAULO Editoria: ECONOMIA E NEGÓCIOS Tipo notícia: Artigo Data: 09/04/2021 Autor: FABIO GIAMBIAGI, ECONOMISTA