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John Elkington: ESG ganhou espaço em empresas, mas não mobiliza mudanças



Quase 30 anos depois de criar o conceito de Triple Bottom Line —um segmento que pretendia unir pessoas, planeta e lucro, todos em equilíbrio, que deu origem ao ESG—, John Elkington, 74, está mais ativo do que nunca para o debate que busca reconfigurar nosso papel no mundo.


Mas, hoje, o britânico vê com certo pesar como o termo ‘ESG’ ganhou espaço no mundo corporativo, ao mesmo tempo em que não se torna efetivo para mobilizar e engajar mudanças no agora.


Entrei na sustentabilidade numa época em que as empresas não queriam ter nada a ver com essa agenda, não queriam mudar. Eu só quero dizer que o ESG é o capitalismo do amanhã, mas ainda não está necessariamente formulado ou concebido de forma a impulsionar o mercado. John Elkington

Quando analisa o atual momento do mundo, Elkington olha para a frente: no meio da ebulição de narrativas e governos de direita que se apropriam da destruição, o otimismo está com as novas lideranças —sobretudo com jovens e mulheres.


”Acho que vejo na nova geração de executivos, muitos dos quais são mulheres, e tem dentro de si uma sensação muito clara de que o lado social é tudo ou nada. E você vê isso também na geração mais jovens, que têm cada vez mais influência na corrida para trazer talentos e também politicamente: agitar, protestar e, num número crescente de países, a votar.”


ESG em meio a realidades diferentes


Mesmo que unifique agendas, a estrutura de ESG se dá de diferentes formas quando empregada para cada região —e essa reflexão passa por Elkington ao tratar sobre o assunto.

No Brasil, questões estruturais como as desigualdades raciais e sociais atravessam o mercado (que muda a passos lentos) sem deixar de abrir procura por profissionais altamente gabaritados para as áreas.


No país, houve um crescimento de 50% na busca por profissionais ligados ao tema ESG, com cargos que chegam até a 40 salários mínimos.


“Penso que nosso desafio é tornar possível para as pessoas não só compreender o que precisa ser feito, mas entender também os progressos que estão sendo feitos, avançando em suas trajetórias.” Mas não só, sinaliza John.


“Costumamos dizer que o ‘S’ em ESG é silencioso. O lado social dessa agenda é muitas vezes ignorado, porque tende a ser visto como político. E, como sabem, isso é mais verdadeiro em certas regiões do mundo, em certos países, do que em outros. Essas questões são fundamentalmente importantes.”

Para Angela Alves, especialista em direito empresarial e ESG, um dos principais fatores que auxiliam para que o profissional tenha um diferencial é a qualificação contínua.


”Ele precisa entender que o papel vai muito além daquilo que se propôs, até mesmo quando se inscrever para uma vaga. É preciso ter visão, para que possa demonstrar em todas as áreas, de forma sustentável, os pilares da empresa. O trabalho em ESG é um nível que tem sido exigido dentro de todo o mercado mundial.”

Apesar da sigla ser ‘pop’ nos últimos tempos, executivos ainda têm dificuldade de enxergar o ESG ”fora da caixinha” de RH e sustentabilidade. Segundo John Elkington, essa mudança pode chegar de maneira mais rápida aos CEOs, mas deveria atingir mais fortemente um outro grupo: os políticos.


Os líderes políticos acham que as empresas não querem ação, e isso é um erro. Eles assumem que as pessoas comuns não querem ação, então também assumem que investidores e acionistas não querem nenhuma mudança”, explica.


No Brasil, a pressão das agendas se torna urgente acima de executivos que não contribuem de maneira efetiva com a implementação das práticas de ESG. É o que acredita Angela Alves, que alerta CEOs sobre os diversos benefícios possibilitados por aqueles que cumprem com a cartilha internacional.


Falamos de gestão estrutural, inovação, tecnologia e valorização de diversas áreas a partir das corporações, não ficando apenas com os eixos de diversidade, questões ambientais, etárias e raciais. Falamos também de retorno no investimento. Se você é executivo e tem medo, você está atrasado. Angela Alves


Os olhos do mundo na Amazônia


Entre as demandas mais urgentes, um dos desafios é manter o progresso regenerativo que possa promeover a riqueza econômica, social e ambiental, num mix de desenvolvimento para bases renováveis

”A razão pela qual penso sobre as agendas de sustentabilidade e de soluções climáticas, agora se tornando políticas, é de que agora são vistas como consequências reais. As pessoas comuns podem ver e muitas vezes experimentar as consequências da inação ou da ação lenta. E estão, portanto, começando a pressionar o sistema político”, enxerga John Elkington, que indica um esforço redobrado para os próximos anos.


”Enquanto pessoas que promovem as energias não renováveis tendem a ter voz menos poderosas até agora, mais veremos resistência política. Teremos de ver as empresas se aproximarem formando novas redes, novas plataformas e campanhas, para defender e apoiar uma ação política eficaz. Sem isso, todos os compromissos ou muitos dos compromissos não serão cumpridos.”


É a partir deste prisma que sua atenção volta-se para a região amazônica e a América Latina como atores importantes para proposta e implementação de novos meios e soluções sustentáveis.


”Ver a Amazônia é como observar um câncer, uma série de cânceres se desenvolvendo. Há um desafio muito diferente, frente à América Latina, ao Brasil —em particular— e a todos os países amazônicos, que é, em algum momento, acordar para o fato de que a Amazônia é um tesouro global. O resto do mundo tem de aceitar, investir e financiar a ação apropriada em países como o Brasil, e essa nova forma geopolítica é algo que está apenas começando.”


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