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Diversidade energética é o mais viável e econômico modelo à descarbonização

É preciso ter em consideração que, no Brasil, a eletrificação não significa necessariamente o fim dos veículos de motor a combustão interna


Nos últimos anos, temos testemunhado um movimento global em direção à redução das emissões de carbono e um foco redobrado no setor de automóveis. Países ao redor do mundo têm investido pesadamente na eletrificação de veículos (estimativa de US$ 1,2 trilhão) como uma solução para mitigar os impactos na mudança climática. O movimento também é visto no Brasil, com lançamentos de carros híbridos e elétricos e a invasão de fabricantes chineses, que desembarcam por aqui com sede de conquistar o mercado local e abocanhar sua fatia.


Mas, se de um lado os fabricantes de autopeças e todo o ecossistema brasileiro precisam se movimentar e se adequar para seguir competitivos e fazer frente à concorrência estrangeira dos veículos elétricos e híbridos, de outro é preciso ter em consideração que a eletrificação do setor não significa necessariamente o fim dos veículos de motor a combustão interna. Ao contrário, o Brasil deve manter vivo esse mercado – e isso pode representar excelentes oportunidades para a indústria automobilística da região.

Diversidade energética é o caminho para a descarbonização no Brasil?


Se a tendência da eletrificação do transporte individual e de carga é a melhor – e talvez a única – alternativa em muitos contextos e países, é preciso reconhecer que uma abordagem única não servirá para todas as realidades. No Brasil ela não funcionará. A sociedade brasileira já investiu pesadamente na produção de biocombustíveis.


É fundamental reconhecer que a coexistência de diferentes tecnologias e fontes de energia de baixa emissão é não apenas possível, mas desejável. O Brasil, com sua vasta área disponível para plantações, e toda a tecnologia que já possui desenvolvida, tem um potencial significativo para liderar a transição do transporte com uso de biocombustíveis de baixíssimo carbono. No setor sucroalcooleiro, por exemplo, o Brasil possui mais de 8,1 milhões de hectares para produção, ultrapassando o valor US$100 bilhões na cadeia (energia e cana de açúcar), com aproximadamente 2,1 milhões de empregos gerados.


O mercado brasileiro está pronto para abraçar de vez os biocombustíveis em todas as suas formas – desde carros movidos a etanol até veículos flex-fuel e diesel renovável e produção de querosene de aviação de baixo carbono (SAF). Toda a cadeia produtiva, incluindo os fabricantes de automóveis, as fábricas de autopeças, as usinas, as refinarias e os agricultores, está preparada para essa transição.


Além disso, ao contrário da eletrificação, que exige uma infraestrutura de recarga significativa (aproximadamente US$ 1,1 bilhão de Capex só em recarga), além da questão da carga pesada (caminhões de larga distância), a transição para os biocombustíveis é rápida e econômica, com perspectiva de aumento da demanda em até 70% para 2032 e conta com uma infraestrutura existente e adaptada.


É fundamental adotar uma abordagem agnóstica em relação às tecnologias e fontes de energia, com o objetivo final de reduzir as emissões de carbono e preservar o meio ambiente ao longo de todo o ciclo de vida de emissões.


Tecnologias distintas para aplicações distintas


É preciso compreender quando cada tecnologia é mais indicada. Os veículos elétricos, por exemplo, podem ser a solução ideal para áreas urbanas densamente povoadas, em que os deslocamentos são curtos e o investimento necessário nos pontos de recarda é menor. Os biocombustíveis se mostram como a melhor opção para regiões nas quais os veículos percorrem longas distâncias em rodovias, para áreas rurais ou de menor densidade populacional. É também a melhor alternativa para os veículos de cargas pesadas, para os quais ainda não se conseguiu desenvolver baterias com autonomia e capacidades suficientes.


Em suma, a indústria automotiva e de transportes brasileira deve adotar uma abordagem agnóstica e equilibrada para alcançar a sustentabilidade. O regulador (governo) deve incentivar a redução da emissão de carbono, independente da tecnologia, e incentivar os hábitos que levem o consumidor a preferir o biocombustível.


Aumentar a mistura do etanol à gasolina dos atuais 27% (E27) para valores mais altos é provavelmente a maior alavanca disponível ao regulador para reduzir no curto prazo a emissão de carbono de nosso transporte. Ao investir em biocombustíveis, o Brasil não apenas aproveita seu potencial natural, mas também promove um futuro mais limpo e sustentável para todos. O potencial de exportação de etanol, SAF, e-fuels etc. é significativo e uma das poucas opções viáveis e escaláveis para países com matrizes energéticas menos favoráveis.


É hora de olhar além do hype da eletrificação e abraçar os biocombustíveis como uma peça fundamental na rota para um futuro carbono neutro. O Brasil pode voltar a ser o mercado de referência em biocombustíveis e mostrar como veículos a combustão podem fazer parte da solução de descarbonização. E o melhor: pode colher estes frutos muito rapidamente.

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